O resgate da espiritualidade na educação Doralice L. de Souza Rocha

02/11/2012 14:33

O RESGATE DA ESPIRITUALIDADE NA EDUCAÇÃO:
REFLEXÕES A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA HOLÍSTICA
Temática: Formação de Educadores
Doralice Lange de Souza Rocha
Universidade Tuiuti do Paraná*
RESUMO
Este trabalho se propõe a discutir uma concepção de espiritualidade dentro
de uma perspectiva holística e argumentar a favor do resgate do tipo de
espiritualidade que esta concepção explicita no âmbito escolar.
Normalmente associamos espiritualidade com religião. Esta associação,
entretanto, nem sempre é correta uma vez que, embora as religiões
envolvam a espiritualidade, a espiritualidade em si nem sempre envolve a
manifestação religiosa. Acreditamos que enquanto o ensino religioso deva
ter seu lugar no currículo enquanto uma disciplina optativa aos alunos, a
espiritualidade deve permear tudo o que se faz na escola. A concepção de
espiritualidade que será aqui discutida relaciona-se com os seguintes temas:
auto-conhecimento e autocontrole para agirmos de forma coerente com o
que acreditamos; capacidade de se estar inteiramente presente no momento
em que vivemos e de perceber e apreciar a beleza das pessoas e do mundo
à nossa volta; a busca da transcendência e do transcendente; senso de
conexão e interdependência com o próximo e com o meio ambiente; senso
de abertura para a vida e de um sentido para o viver; desenvolvimento de
valores humanos universais. Após discutirmos nossa concepção de
espiritualidade, apresentaremos sugestões de como ela pode ser trabalhada
no contexto escolar. Considerando que a concepção de espiritualidade que
aqui propomos deve permear todo o currículo, defendemos a apropriação
desta concepção e o desenvolvimento das qualidades que ela propõe por
parte dos professores durante a sua formação e prática profissional. A
discussão aqui proposta se faz relevante, uma vez que a mentalidade
extremamente materialista/consumista que tem permeado nossa sociedade,
tem nos levado a problemas seríssimos tais como a super-valorização do
“ter” em detrimento do “ser”; a falta de um propósito significativo para a
nossa vida; a agressividade nas relações humanas e a indiferença em
relação ao bem estar do próximo e do meio ambiente.
PALAVRAS-CHAVE: educação; espiritualidade; educação e espiritualidade
* Professora do Programa de Pós-Graduação—Mestrado em Educação da
Universidade Tuiuti do Paraná
e-mail: desouzdo@post.harvard.edu
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INTRODUÇÃO:
Este trabalho se propõe a discutir a concepção de espiritualidade
dentro de uma perspectiva holística e argumentar a favor da necessidade da
inserção da espiritualidade no âmbito escolar. Iniciaremos com uma breve
discussão sobre os problemas da sociedade materialista e consumista em
que vivemos buscando justificar a nossa proposição. Discutiremos então
nossa concepção de espiritualidade, baseados nos temas que permeiam o
trabalho dos atores que atuam, de forma direta ou indireta, com a questão
da espiritualidade dentro de uma perspectiva holística. No final
apresentaremos algumas sugestões sobre como a espiritualidade pode ser
trabalhada no âmbito escolar.
OS EXCESSOS DE NOSSA CULTURA MATERIALISTA: O ENFOQUE NO TER EM
DETRIMENTO DO SER
Em nossa sociedade prepondera uma visão materialista e
consumista, onde o TER vale mais do que o SER. O nosso sucesso tem
normalmente sido definido em termos do quanto conquistamos em termos
materiais e não em termos do quanto conquistamos à nível de
desenvolvimento pessoal e/ou promoção do bem comum. Esta visão tem
prejudicado o desenvolvimento dos nossos diferentes potenciais, uma vez
que, em nome do desenvolvimento de nosso aspecto cognitivo/intelectual—
que normalmente é o mais rentável à nível financeiro—pouco
desenvolvemos, por exemplo, nossos dons intuitivos, criativos e artísticos, a
nossa inteligência emocional e a capacidade de nosso corpo de se
expressar livremente e criativamente através do movimento.
Uma das conseqüências mais perversas da visão materialista e
consumista que permeia nossa sociedade é que ela tem nos alienado de
nós mesmos. Muitos de nós já não sabemos mais distinguir nossas reais
necessidades e aspirações das necessidades e aspirações artificialmente
criadas por interesses capitalistas. Outra consequência perversa desta
visão, é que ela tem levado a uma competição inescrupulosa entre os
indivíduos por posições no mercado de trabalho. Isto tudo tem gerado muito
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mal estar, angústia e agressividade nas relações humanas. Tem também
levado a um consumo exagerado que está destruindo o meio ambiente e
comprometendo a qualidade de vida no planeta em um futuro não muito
distante (ex. BOWERS, 1993; COBB, 1996; SMITH, 1992). É dentro deste
contexto que defendemos aqui o resgate da espiritualidade na educação.
DEFININDO ESPIRITUALIDADE
Conforme discutimos em outro trabalho (Rocha, 2002), quando
falamos em dimensão espiritual, ou espiritualidade, não nos referimos
necessariamente à religião ou ensino religioso. Ao nosso ver, embora
religião sempre envolva a espiritualidade e/ou a dimensão espiritual do
indivíduo, a dimensão espiritual e a espiritualidade nem sempre envolvem
uma manifestação religiosa. Como afirma Galyean (1989, p. 25):
Religião é uma forma cultural, litúrgica, ritualística e mística que escolhemos para viver
nossas experiências espirituais…Espiritualidade não é uma doutrina que pode ser ensinada.
É uma energia vital expressa através de nossa percepção, pensamento e sentimentos que
se manifesta enquanto força criativa. (minha tradução)
De uma forma geral, os processos religiosos enfatizam a existência
de um criador e visam a manutenção de determinados valores tais como a
ordem, a continuidade e a estabilidade. Normalmente são transmitidos de
geração a geração e seguem princípios e uma estrutura bem definida. Já a
espiritualidade, embora ela possa ser vivida dentro de denominações
religiosas, ela não se constitui em uma doutrina que possa ser ensinada. Ela
se manifesta a partir do interior do indivíduo, não segue a regras e não se
submete a rituais específicos. É um processo individual, imprevisível e
idiossincrático que muitas vezes se manifesta enquanto força criativa e
introduz novidades no sistema (KESSON, 1994). Ela determina a forma com
que percebemos e lidamos com nossa vida e nos relacionamos com as
outras pessoas e demais seres vivos à nossa volta (GALYEAN, 1989).
Defendemos aqui que tanto o ensino religioso quanto a espiritualidade
tenham o seu lugar no currículo: o primeiro enquanto disciplina optativa aos
alunos, a segunda, enquanto um fenômeno que deve permear todo o
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currículo escolar. O ensino religioso, ao nosso ver, não deve perpetuar a
prática de dominação e conquista que ainda pode ser encontrada em
algumas escolas. Ele também não deve se prestar a passar a visão de um
Deus controlador e punitivo e que gera um sentimento de culpa e pavor nas
pessoas (ESPÍRITO SANTO, 1998), prática esta que tem gerado
preconceitos contra a sua inserção no meio escolar. Acreditamos, como
afirmam Junqueira et al. (2003) e Junqueira e Oleniki (2004), entre outros,
que o ensino religioso deve ser encarado enquanto um espaço para se
explorar de forma reflexiva e crítica o fenômeno religioso contextualizado na
realidade sócio, política e cultural onde as diferentes tradições religiosas se
manifestam. Ao mesmo tempo que deve promover um profundo respeito
pela diversidade religiosa que encontramos hoje em nossa sociedade, deve
enfatizar os pontos de convergências entre as diferentes religiões. A sua
meta principal, acreditamos, deve ser a de contribuir para com a
transformação dos indivíduos e da sociedade a partir dos conhecimentos e
valores com que trabalha.
Mas qual seria a nossa concepção de “espiritualidade”? Para explicála,
buscamos na literatura alguns temas que permeiam o trabalho de autores
que trabalham direta ou indiretamente com a questão da espiritualidade.
Note que os temas que serão trabalhados abaixo foram subdivididos
exclusivamente para fins didáticos. De forma alguma eles são trabalhados
pelos autores pesquisados ou devem ser encarados pelo leitor, enquanto
separados uns dos outros.
ESPIRITUALIDADE ENQUANTO DESENVOLVIMENTO DE AUTO-CONHECIMENTO,
AUTOCONTROLE E UMA FORMA DE SE “SER” E ESTAR NO MUNDO COERENTE COM O
QUE REALMENTE ACREDITAMOS
O auto-conhecimento e o autocontrole são componentes indissociáveis
da espiritualidade humana, como bem tem enfatizado, por milênios,
diferentes tradições espiritualistas orientais (ex. Budismo, Hinduismo,
Taoismo, Tantra). O desenvolvimento de auto conhecimento é essencial
para que possamos desenvolver um senso de identidade e propósito
significativos para nossas vidas (ex. R. MILLER, 1990a; CANFIELD, 1980;
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KESSON, 1997; MOFFET, 1994; KRISHNAMURTI, 1981), para que
possamos distinguir nossas necessidades e aspirações mais genuínas do
que nos é imposto por condicionamentos sociais e culturais, e para que
possamos ter uma vida coerente com nossas reais necessidades e
aspirações (ex. EVANS, 1993; HUEBNER, 1995; KESSON, 1997; MOFFET,
1994, STEINER, 1995).
O auto-conhecimento, como já afirmava Sócrates, é o ponto de
partida para a sabedoria. Quando nos alienamos de nós mesmos e não nos
auto-conhecemos, inconscientemente acabamos por nos deixar levar pelas
necessidades e aspirações artificialmente criadas pelas forças hegemônicas
da sociedade capitalista, materialista e consumista em que vivemos. Assim,
sem nos darmos conta, muitos de nós acabamos por seguir ideais e
carreiras que nem nos satisfazem intimamente e nem contribuem
significativamente para o bem comum. Tendemos a nos apegar à uma falsa
ilusão de que se trabalharmos um pouco mais, se conseguirmos mais uma
promoção e/ou se melhorarmos um pouco mais a nossa remuneração,
conquistaremos a felicidade. Este tipo de atitude—esta roda viva de se
conquistar mais e mais no campo material—tem nos privado de satisfazer
nossas necessidades básicas tais como a de exercermos uma profissão que
nos traga satisfação pessoal e a de dispormos de tempo e energia para
nosso autodesenvolvimento, lazer e descanso. Isto tem levado muitos de
nós a um sentimento de vazio interior mesmo nos raros casos aonde temos
acesso a todos—ou a quase todos—os bens materiais que desejamos (DE
SOUZA, 2000; ROCHA, 2002). Como coloca Kirschenbaum (1980):
Nos tornamos condicionados a pensar que a melhor forma de atender nossas
necessidades (…) se dá através da aquisição de bens materiais. Quando percebemos que
uma determinada aquisição não funcionou—não nos fez mais feliz, mais sexy ou mais seja
lá o que gostaríamos de ser—normalmente não chegamos à conclusão que a satisfação de
nossas necessidades mais básicas não se dá através de aquisição de bens materiais. Em
vez disso dizemos: “Bem, aquilo não me satisfez mas eu ouvi falar de algo que certamente
é melhor”. Nos tornamos divorciados, como resultado, de entender quais são as nossas
reais necessidades. (p. 47, minha tradução).
A conquista indiscriminada de bens materiais, como coloca Bowers
(1993), não nos leva além de pequenos momentos de “highs” (estados
agudos de excitação) que rapidamente se esvaecem, uma vez que na
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maioria das vezes, grande parte destes bens não alimentam o nosso
espírito.
A alienação de nosso ser interior, e de portanto, de nossas
necessidades mais básicas, e a busca desenfreada pelo “TER”, tem gerado
uma epidemia de ansiedade, angústias, depressão, agressividade, violência,
dependências químicas e idolatria de falsos heróis. Quem de nós—mesmo
aqueles que aparentemente conquistamos tudo o que poderíamos
conquistar em termos materiais—não sofre de forma direta ou indireta de
algum destes males? Só podemos encontrar a felicidade e um propósito
valioso para a nossa existência dentro de nós mesmos (GLAZER, 1997). A
busca destes objetivos fora de nosso ser interior se constitui em um grande
e desnecessário desgaste de tempo e energia.
Enquanto o auto-conhecimento é fundamental para que possamos
entender quais são as nossas necessidades e aspirações mais profundas e
autênticas, o autocontrole é fundamental para que possamos agir de forma
coerente com o que acreditamos e possamos nos manter firmes rumo à
conquista de nossos verdadeiros ideais, mesmo em face de todas as
“tentações”, pressões e demais dificuldades que encontramos em nosso
caminho.
ESPIRITUALIDADE ENQUANTO A CAPACIDADE DE SE VIVER INTEIRAMENTE O
MOMENTO PRESENTE
Conforme os ensinamentos de diferentes tradições religiosas e
práticas orientais (ex. Budismo, Hinduismo, Taoismo, Tantra, Yoga, Kung
Fu), a capacidade de se viver o momento é um outro elemento indissociável
da espiritualidade. Infelizmente, já desde cedo, somos treinados a viver de
forma fragmentada e colocar o nosso corpo físico, racional, emocional e
espiritual em “tempos e lugares distintos”, o que nos impede de presenciar
as situações que vivemos inteiramente (Espírito Santo, 1998, p. 98).
Para que possamos viver o aqui e o agora, necessitamos de um
certo grau de auto-conhecimento e autocontrole. Precisamos, por exemplo,
aprender a detectar e a relaxar as partes tensas de nosso corpo que nos
previnem de sentir as sensações que determinadas circunstâncias podem
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nos proporcionar. Precisamos aprender a detectar e a nos livrar de
preconceitos que nos impedem de prestar atenção no que determinadas
pessoas podem nos ensinar. Precisamos também, como coloca Goleman
(1995), aprender a detectar e quebrar ciclos de pensamentos que
constantemente nos projetam mentalmente para o passado ou para o futuro,
e que portanto, nos roubam a possibilidade de apreendermos cada momento
em sua totalidade e riqueza, e nos previnem de extrairmos dos mesmos tudo
o que eles têm a nos ensinar.
A capacidade de presenciarmos o momento está relacionada com
a habilidade de apreciarmos a beleza das pequenas coisas do mundo à
nossa volta, como por exemplo, a do som da chuva ou do canto de um
pássaro, das cores de uma flor, do brincar de uma criança e de gestos de
demonstração de amor. Esta capacidade, como sabemos, relaciona-se
diretamente com a nossa qualidade de vida e vontade de viver.
ESPIRITUALIDADE ENQUANTO BUSCA DA TRANSCENDÊNCIA E DO TRANSCENDENTE
A busca da transcendência e do transcendente é outro tema
fundamental que permeia o trabalho dos autores que trabalham com a
questão da espiritualidade. Mas o que queremos dizer com transcendência e
transcendente? Quando falamos em transcendência, nos referimos a um
sentimento de que nossa vida tem um significado que transcende a mera
sobrevivência e a realização de metas socialmente determinadas. Nos
referimos também à vontade de irmos além de limites pessoais e culturais
(GRIFFIN, 1981; R. MILLER, 1990a, 1990b). Além disto, nos referimos à
vontade e disposição de aprendermos mais do que já sabemos, de nos
tornar melhor do que já somos e de irmos além de onde já chegamos
(HUEBNER, 1995; R. MORAES, 2002).
Quando falamos em transcendente, nos referimos a um sentimento de
que a realidade vai além do que sabemos e nossos sentidos podem
perceber (GALYEAN, 1989; GANG, 1988; GRIFFIN, 1981; R. MILLER,
1990a, 1990b; HUEBNER, 1995; STEINER, 1998). Ou seja, nos reportamos
a um sentimento de que a realidade vai além do plano material de nossa
existência. Nos referimos também à idéia de que existe uma força maior do
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que nós mesmos, seja lá qual o nome que possamos dar à esta força (ex.
Deus, Budha, Tao, Força Cósmica, Energia Suprema). Além disto, nos
referimos à um sentimento de admiração e respeito pela vida e pelo que nos
mantém vivos (EVANS, 1993; GANG, 1988; R. MILLER, 1990a, 1990b).
Finalmente, nos reportamos à vontade de rompermos o cárcere de nossa
finitude rumo à uma existência que vai além da vida terrena (R. MORAES,
2002).
ESPIRITUALIDADE ENQUANTO UM SENSO DE CONEXÃO COM O PRÓXIMO E COM O
MEIO AMBIENTE
A grande maioria dos autores que trabalham o tema espiritualidade
dentro de uma perspectiva holística, o relacionam com a nossa capacidade
de perceber que somos parte de um todo maior, onde tudo está conectado e
é interdependente com tudo mais no universo (GANG, 1988; GANG, LYNN,
E MAVER, 1992; HUTCHISON, 1991; KESSON, 1997; R. MILLER, 1990a;
MOFFET, 1994; STEINER, 1998). Precisamos nos conscientizar que o
nosso bem estar está profundamente ligado ao bem estar do próximo e ao
do meio ambiente, e que tudo o que fazemos e/ou deixamos de fazer tem
algum tipo de conseqüência em nós mesmos e no mundo à nossa volta. Por
exemplo, na medida em que permitimos que cortem as árvores de nosso
quintal, acabaremos por nos privar de suas sombras, dos seus frutos e do
som dos pássaros que nelas vivem e que cantam à nossa janela. Estes
pássaros, bem como todos os outros animais/microorganismos que habitam
estas árvores terão que procurar uma outra árvore para se instalarem e
conquistar o seu lugar na mesma, o que possivelmente ocasionará o
desalojamento de outros pássaros e microorganismos que lá habitam.
Dentro de uma perspectiva verdadeiramente espiritual, não basta
que desenvolvamos sensibilidade em relação às nossas interconexões e
interdependências para com o mundo e pessoas à nossa volta.
Precisamos desenvolver uma forma de agir coerente com o que sentimos e
sabemos, admitindo que somos também responsáveis pelo equilíbrio e bem
estar do todo do qual fazemos parte (MOFFET, 1994). Não basta, por
exemplo, estarmos conscientes dos problemas ambientais que enfrentamos
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hoje. Precisamos também, ser capazes de dizermos não às coisas que
embora úteis à nossa pessoa, possam por ventura contribuir ainda mais
para o desequilíbrio ecológico do planeta. Também não basta
contemplarmos e criticarmos as mazelas do mundo. Precisamos realizar
ações concretas para melhorá-lo. Neste contexto, concordamos com R.
Moraes (2002), quando ele afirma que todo espiritualismo emocionalista e
introspectivamente individualista é um falso espiritualismo. Na medida em
que, em nome da espiritualidade, nos alienamos da realidade à nossa volta,
esta espiritualidade passa a funcionar como um narcótico qualquer.
ESPIRITUALIDADE ENQUANTO UM SENSO DE ABERTURA PARA A VIDA, RENOVAÇÃO
DE NOSSA VITALIDADE E RESGATE DE UM SENTIDO PARA O VIVER
Conforme afirma Evans (1993), existem duas formas básicas de se
ser e estar no mundo: fechada e aberta. A primeira é baseada no medo, nos
temores, no distanciamento do mundo. A segunda busca a vida, a
renovação de nossa vitalidade, o nosso lugar no mundo:
“Algumas pessoas são bastante abertas. Suas faces brilham com uma luz que irradia de
alguma força oculta dentro delas mesmas. Seus corações, cheios de calor humano e bem
estar, transbordam em uma generosa atitude de expansão e divisão espontânea de
abundância interna. Uma chama de vida irradia das mesmas, gerando nova vida em outros.
Elas tem uma atitude de cuidado apaixonada pelo próximo, compartilham com a criatividade
e felicidade dos outros e lamentam suas tragédias e auto-traições. Suas palavras e ações
brotam diretamente de um centro intenso de paixão poderosa. Eles amam a vida”. (p. 17,
minha tradução).
Segundo Evans (1993), normalmente só conseguimos nos tornar
abertos quando aprendemos a nos auto-conhecer e a lidar com o que
potencialmente poderia nos fechar (ex. medos, apegos e dificuldades). Na
medida em que deixamos que estes problemas tomem conta de nosso ser,
deixamos de experienciar novas situações e relacionamentos que
potencialmente poderiam gerar novas conexões e aprendizagens. Ou seja,
perdemos a oportunidade de vivenciar as possibilidades do aqui e do agora.
A abertura para a vida e o gosto de se abertamente explorar e experenciar o
mundo a nossa volta relacionam-se diretamente com a nossa capacidade
criativa (KRISHNAMURTI, 1981) e com o prazer de estarmos vivos.
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ESPIRITUALIDADE ENQUANTO O DESENVOLVIMENTO DE VALORES HUMANOS
UNIVERSAIS
Existe hoje todo um movimento em prol do resgate da
espiritualidade, visando a retomada de valores humanos para se por fim aos
enormes problemas que assolam a sociedade hoje, como por exemplo, o
individualismo exacerbado, a indiferença em relação ao próximo e ao meio
ambiente, a violência e a agressividade tão presente em todos os níveis de
relações humanas (ex. entre colegas, pais e filhos, marido e mulher, patrão e
empregado).
Os valores que normalmente se julga importante resgatar são os
mesmos presentes nos diferentes textos sagrados tais como a Bíblia, o
Alcorão, os Vedas, o Bhagavad-Gita. O resgate de valores—como por
exemplo, a honestidade, justiça, compaixão, coragem, ação-correta e a não
violência—se fazem mais necessários do que nunca, tanto para o resgate de
da paz social quanto para a nossa paz interior.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O RESGATE DA ESPIRITUALIDADE NA ESCOLA
Espiritualidade, dentro da concepção que aqui apresentamos, visa
resgatar um senso de nossas reais necessidades e aspirações, nossa
verdadeira identidade e um propósito significativo para as nossas vidas, a
capacidade de vivermos de forma coerente com nossos propósitos, a
habilidade de vivermos inteiramente o presente e de percebermos a beleza
do mundo e das pessoas à nossa volta, um senso de interconexão e
interdependência com o próximo e para com o meio ambiente e um
compromisso para com o equilíbrio e o bem estar dos mesmos, a busca da
transcendência e do transcendente, uma atitude de abertura para a vida e o
desenvolvimento de valores universais. Acreditamos, conforme afirma M. C.
de Moraes (2003) que:
[a espiritualidade] possui um movimento dialético entre interior e exterior, que envolve todos
os seres. Um movimento interior alimentado pelos momentos de reflexão, a contemplação e
interiorização, pelo diálogo com nosso eu profundo. Um movimento exterior que nos coloca
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em contato com outros seres, que traduz o conjunto de relações existentes entre o ser
humano e o restante da natureza, relações de respeito às diferenças, de solidariedade e de
compaixão, que reforçam a noção de complementaridade existente entre os seres. (p. 177)
A concepção de espiritualidade que aqui propomos é “dialética”.
Ela envolve um movimento demanda tanto um trabalho interior, direcionado
ao auto-desenvolvimento do indivíduo, como também um trabalho exterior,
ou seja, as ações concretas do mesmo para a melhoria da realidade em que
vive.
O resgate da espiritualidade na educação, dentro da perspectiva
aqui discutida se faz necessário para que possamos contribuir para a
transformação do triste cenário de sofrimento e miséria humana que
vivenciamos hoje. Note entretanto, que o tipo de espiritualidade implícita na
concepção que aqui discutimos, não é algo que pode ser trabalhado
enquanto um corpo teórico de conhecimentos ou uma disciplina. Esta
espiritualidade deve permear todo o currículo e a sua implementação
dependerá, como veremos abaixo, da capacidade do professor de vivê-la em
seu trabalho. Isto entretanto, exigirá do mesmo uma longa jornada de autodesenvolvimento,
que demandará muita dedicação e auto-disciplina desde a
sua formação inicial até os últimos dias de seu magistério, para não dizer de
sua vida. A seguir apresentaremos algumas sugestões de como esta
concepção de espiritualidade pode ser trabalhada no âmbito escolar:
• Modelar, através de nosso exemplo, uma forma de ser menos materialista e
mais centrada no nosso desenvolvimento interior e na qualidade das nossas
relações com o próximo e com o meio onde vivemos (ELKIND, 1992;
WOODS e WOODS, 1994; GANG et al., 1992, STEINER, 1995)
• Demonstrar um senso de respeito nas nossas relações com as pessoas
(ELKIND, 1992) e com o mundo à nossa volta.
• Promover um senso crítico nos alunos de forma a ajudá-los a perceber o
quanto o contexto social e cultural influencia e limita o nosso olhar sobre
nossas possibilidades (HUEBNER, 1995), necessidades e propósitos.
• Promover momentos de reflexão onde os alunos busquem a sua verdadeira
identidade e respostas aos seus dilemas, o que pode ser feito, por exemplo,
através da escrita de um diário ou de redações livres (J. MILLER, 2000).
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• Demonstrar, através de nosso exemplo, a importância de se ter presença no
momento e de se apreciar a beleza das pessoas e do mundo à nossa volta.
• Proporcionar contato com os diferentes tipos de manifestação artísticas
verdadeiramente criativas para contrabalançar o impacto da cultura de
massa e estimular a expressão da criatividade dos alunos (GRIFFIN, 1981).
• Incentivar o desenvolvimento de atividades artísticas, na medida em que
estas potencialmente promovem auto-conhecimento (J. MILLER, 1988) e
sugerem diferentes “formas de se ver e de se ser” (HUEBNER, 1995, p.19).
• Promover o desenvolvimento de valores humanos universais.
• Promover leituras e discussões que busquem resgatar um significado
profundo para nossas vidas ao invés de desenvolver temas destituídos de
relevância para a felicidade humana (GRIFFIN, 1981; R. MORAES, 2002).
Para encerrar, gostaria de parafrasear Glazer (1997) que quando ao
finalizar o seu livro sobre educação e espiritualidade conclui que da mesma
forma que o espírito permeia tudo, espiritualidade em educação também
relaciona-se com tudo: Relaciona-se com a nossa capacidade de estarmos
abertos à nós mesmos, de explorarmos o nosso território interior, de
encararmos nossos medos e de nos manter abertos para o desconhecido.
Relaciona-se com autoconsciência, com o cuidar e ser cuidadoso, com a
capacidade de nos engajar inteiramente nas situações em que nos
encontramos, e com uma abertura para mudarmos nossas crenças, ações e
estratégias quando necessário. Relaciona-se com um sentimento de
conexão com uma força maior do que nós mesmos e com um senso de
interconexão e interdependência com tudo e todos à nossa volta. Relacionase
também com um estado de inteireza e plenitude. Conecta-se ainda com
a nossa capacidade de nos fazer presente no momento e de ver em cada
situação, uma oportunidade de aprendizagem e transformação. Finalmente,
como afirma Palmer (1998), relaciona-se com a coragem de vivermos a
nossa verdade, de não mais vivermos divididos entre nossa verdade interior
e o que nos sentimos as vezes forçados a fazer por causa das pressões
externas que à nós são impostas em nossa jornada rumo aos nossos
objetivos mais genuínos.
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