O conceito de espiritualidade no Ocidente

O Conceito de Espiritualidade no Ocidente
2010-06-02 15:09
Uma reflexão social e histórica sobre o desenvolvimento do conceito ocidental de Deus e sua relação com o ser humano.

Por Luciano Fiscina

Entender historicamente a cultura é um exercício fundamental. Por isso, vamos refletir sobre um conceito que tem uma força histórica determinante na cultura ocidental e que influencia a noção tradicional de espiritualidade: o conceito de Deus.
A cultura judaico-cristã dominou explicitamente os interesses e a liberdade social por bastante tempo, e não há duvidas do quanto ainda permanecemos atrelados a essa influência, seja pelo lado da crença, seja do ateísmo; ambos são posições antagônicas que acompanham o desenvolvimento histórico do conceito de Deus no Ocidente.
Quando nasceu o cristianismo, as pessoas, descontentes com a situação sócio-econômica da época, estavam “carentes” de ideais e valores mais elevados. Foi quando Jesus trouxe uma nova doutrina, na qual propunha o amor a Deus, de forma incondicional, e o serviço desinteressado ao próximo. O cristianismo, então, nasce como uma religião de indivíduos que se unem por meio da fé.
Essa concepção quebrou as religiões antigas, nas quais a divindade estava relacionada com a comunidade social e politicamente organizada. Mas, o Deus cristão se relacionava diretamente com cada um, isto é, a vida ética passou a ser definida pela relação espiritual e íntima com Deus. Dessa maneira, os ensinamentos religiosos se tornaram o centro da atividade intelectual da Alta Idade Média. Textos que defendiam o cristianismo foram elaborados com o intuito de converter os pagãos e combater as heresias, justificando, assim, a fé em um Deus todo-poderoso. A partir daí, se cristaliza o esforço cultural em unir fé e razão.
Após a morte de Cristo, instituições começaram a se formar, esquematizando e hierarquizando a doutrina cristã. As obras evangélicas fortaleceram a Igreja à medida que a estrutura sócio-econômica se modificava. A descentralização do poder permitiu o crescimento de poderes paralelos e isolados (sistema feudal), enquanto o pensamento cristão se tornava o centro da política. Esses foram, basicamente, os dois principais motivos que levaram o poderio romano ao declínio. A Igreja se caracterizava como a única forma de poder centralizado.

Do século 1 ao século 7, os padres da Alta Idade Média foram os primeiros organizadores da doutrina cristã e recorreram a Platão para fazer adaptações aos textos religiosos. O intento de Paulo e João Evangelista, os dois apóstolos de Jesus, junto com os primeiros padres, era unir o cristianismo com o pensamento grego, mais precisamente com o pensamento de Platão, o que é conhecido como filosofia patrística.
Um clima profundamente religioso permeava a propagação dos ensinamentos de Jesus. A fé tomou destaque no pensamento ocidental e o processo de evangelização ganhava cada vez mais adeptos. Foi nessa época que os primeiros conceitos do cristianismo, os mesmos que conhecemos até hoje, foram estabelecidos. Questões como Juízo Final, Pecado Original, Ressurreição dos Mortos, a idéia do Mal e do Inferno, foram criadas pelos primeiros padres, consolidando-se como dogmas, dentro de uma classe de conhecimento concedido pelo Divino e, portanto, irrefutável.
Santo Agostinho (354-430) é o principal representante da filosofia patrística, a qual busca em Platão os alicerces para os ensinamentos religiosos. O conhecimento de Deus, para Agostinho, vinha de Deus, assim como para Platão vinha do mundo inteligível.
Outra escola da filosofia cristã é a escolástica, que apareceu num período em que a Igreja dominava a Europa. Foi a época das cruzadas à Terra Santa e dos métodos racionais de se pensar sobre Deus. Esses métodos encontravam sustentação em Aristóteles. As separações duais entre céu e inferno, infinito (Deus) e finito (homem), a hierarquia dos céus, como Deus, arcanjos e anjos, fizeram o homem se render às “forças maiores”, o que firmou a posição de súplica, de medo, de flagelação e de forte superstição na Idade Média. São Tomás de Aquino (c. 1224-1274) é o principal representante deste segundo momento na filosofia da Igreja medieval, conhecida como escolástica.
O trabalho de São Tomás foi resgatar Aristóteles e introduzir suas idéias na doutrina cristã. Durante muito tempo predominou somente a filosofia de Platão, considerada a mais apta aos ideais da Igreja. O pensamento de Aristóteles era visto com ceticismo e desconfiança. Aristóteles considerava o homem parte do mundo natural, enquanto a religião ensinava que o homem era distinto dos animais e superior a eles. Mas São Tomás de Aquino foi profundamente influenciado por algumas concepções aristotélicas, entre elas a noção de que o homem só encontra sua realização no equilíbrio das condições materiais. O poder político é responsável por cuidar das necessidades naturais do homem, enquanto um ser social que necessita alcançar fins terrenos.

Essa época é marcada pelo geocentrismo e teocentrismo. A Igreja acreditava que a Terra era o centro do universo, e tudo devia ser feito para agradar a Deus. A Igreja dificultou o acesso aos livros que eram considerados contrários aos ideais da doutrina, assim como proibiu a publicação de novas descobertas a respeito do cosmos. No século 12 criou a Inquisição, com tribunais que julgavam os “desvios da fé”.
Entretanto, a visão medieval entrou em um processo de declínio, justamente devido às revoluções que o Renascimento trouxe para os campos da ciência, da política e da economia. As grandes descobertas marítimas, a conquista de novas terras, o intercâmbio cultural e a expansão territorial provocaram, pouco a pouco, a perda da força da Igreja sobre o comportamento intelectual e social. Esse período é conhecido como Racionalismo Clássico, sendo marcado pelos primeiros movimentos que caracterizam o resgate do homem e da natureza.
O Racionalismo combatia a superstição. Durante o século 14, época do Iluminismo, conhecido como o período da razão (século das luzes), a moral se desvincula da religião, fazendo com que os valores, que antes estavam apenas e exclusivamente em Deus, estivessem agora no homem. Através da luz da razão o homem questiona e fornece novas respostas à sociedade.
Enquanto a ciência ganhava espaço no campo do pensamento social, político, econômico, artístico e cultural, os conceitos religiosos sobre a origem do homem e do universo se mostravam insustentáveis para a razão iluminista. Nietzsche, por exemplo, apareceu como uma figura importante dessa época. Ao anunciar a “Morte de Deus” – uma expressão simbólica que representa o fim da moral cristã – ele propunha que fossemos além do bem e do mal, isto é, além da moral.
Para Nietzsche, o homem é responsável pelos seus atos, algo que por muito tempo foi atribuído a Deus. Ele acreditava que a doutrina cristã havia popularizado e massificado a condição humana. Por isso, Nietzsche cunha o termo super-homem para aquele que consegue se livrar da cegueira social, “congelada” pelos dogmas religiosos. Nesse sentido, Nietzsche antecipa alguns conceitos da psicanálise, ao falar nas figuras de moralidade que são internalizadas e depois projetadas. Ele questiona toda espécie de valor moral, tentando trazer à luz as condições históricas que “mataram” Deus. A Igreja “matou” o homem e este mesmo homem “matou” Deus.

A visão ocidental mostra um Deus criador, julgador e todo-poderoso. Há um abismo entre o homem e Deus, entre o criador e a criatura. O homem deve se sujeitar à vontade de Deus, que redime o ser humano do pecado, julga e dá a punição. Assim, o fiel se torna um instrumento da ação divina. Abandonando o pecado e a passividade diante do Mal, ele assegura um lugar no Céu.
Todo vínculo se constrói por um sistema de valores e relações; portanto, o vínculo ocidental entre o homem e Deus mostra uma relação hierárquica e distante. Nesse sentido, o céu parece operar sob um sistema burocrático, no qual tudo acaba funcionando com base no incentivo à crença no poder de Deus.
Esse sistema de organização do Céu se baseia na expectativa de que o homem corresponda a um modelo de governança estabelecido pela submissão às medidas de salvação adotadas. A salvação é um conjunto de possibilidades de anistia ao pecado cometido por Adão e Eva. A nossa responsabilidade pela ação pecadora de Adão e Eva gerou uma dívida cujo perdão só é possível com o reconhecimento do sofrimento de Jesus Cristo. A manifestação desse reconhecimento se dá por meio do sacramento, formado pelo batismo.
Para compensar o descompasso que surgiu entre a sociedade e a religião, apareceram filosofias de vida não-religiosas, como o humanismo, o materialismo e o marxismo, cujas premissas não se baseiam num fundamento religioso. Isso mostra que, com o avanço da industrialização e o advento da sociedade moderna, surgiram novas explicações sobre a natureza do homem, seus conflitos e sua relação com o meio ambiente, ao mesmo tempo em que, com o pós-modernismo, se tornou comum falar de uma “nova espiritualidade”, um movimento alternativo que atingiu sua plenitude nas décadas de 1960 e 70.
A volátil atmosfera dos anos 1960 gerou um amplo e vital corpus de pensamento e controvérsias sobre o sentido último do modo de vida moderno. Entre esses movimentos, está o que conhecemos por esoterismo, que engloba a astrologia e várias formas alternativas de terapia, vindas, sobretudo, do Oriente.
O esoterismo aparece como uma contestação à ciência materialista e ao dogmatismo religioso. Através dele, cresceu o interesse pela meditação, pelo yoga, pelo tai chi chuan, feng shui, massagens orientais, acupuntura, medicina chinesa, medicina ayurvédica, budismo etc. Os que acreditam nessa nova tendência chamam de holismo (do grego “total”, “inteiro”) a iniciativa em retraduzir o conceito de espiritualidade no Ocidente.
O holismo nasce como uma tentativa do homem pós-moderno de replantar o ser humano num sistema orgânico, vivo e ecologicamente sustentável. Os movimentos considerados alternativos não apenas se preocupam em alterar nossa maneira de pensar, mas se empenham também na implantação de um novo estilo de vida, o qual procura conciliar nossa marcante história religiosa com as conquistas e contradições do mundo moderno, enquanto que o conceito de Deus continua a navegar nas constantes e dinâmicas variações culturais. 

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